Quem sou eu
NASCI ASSIM
Sou Lurdinha Bezerra, nasci em Patos na Paraíba e cheguei em Ipiaú-BA com um mês de idade.
Meu avô era tropeiro e viajava com uma tropa de animais desde o início do século passado, percorrendo os estados de Paraíba, Pernambuco e Bahia vendendo “Mangalhos” era este o nome dado a diversidade de mercadorias que levava e trazia, ficando assim, conhecido pelo nome de “Zé Magalheiro” e foi assim que ele descobriu esta comunidade, sob a denominação de Alfredo Martins. O comércio do “mangalho” foi intensificando à medida que esta região progredia, ficando ele cada vez mais tempo distante da família. Então resolveu trocar a tropa por dois caminhões, vendeu todos os bens que tinha na Paraíba e em Pernambuco e abriu aqui a primeira indústria manufatureira de calçados. Trouxe mais de cinqüenta famílias do nordeste para trabalhar aqui na região, vinte das quais trabalharam com ele na indústria. Em 1958 fechou a indústria para abrir uma Loja de couro e calçados: SAPATARIA PARAIBANA, situada à Praça Virgílio Damásio. Ficou então reconhecido pelo seu verdadeiro nome: José Sebastião de Souza.
A família veio depois, em maio de 1952 primeiro os filhos mais velhos, e quatro anos depois a esposa D. Ester e os filhos menores. Todos aqui se adaptaram, e outras gerações se seguiram.
Aqui estou, com um pouco mais de meio século, apaixonada por esta terra; a única que reconheço como minha e que se fez minha mãe e amada, pois foi aqui que aprendi a ser o que sou.
CRESCI ASSIM:
Vi Ipiaú se desenvolver, tomei banho nos rios da Água Branca e Rio das Contas, cresci escrevendo e declamando poemas, e fazendo pecinhas de teatro nas escolas. Ouvi todas as histórias e “causos” do coronelismo, das origens deste município, do Padre Fileto, de ex-escravos dos agregados - escravos brancos das fazendas de cacau -, (histórias que terão oportunidade de conhecê-las aqui nos meus contos e crônicas). Conheci figuras interessantes, que fez parte da nossa história. Presenciei as campanhas políticas de Urbano Cem Conto. Fui freqüentadora assídua do Cine Éden. Vi a primeira Igreja cair naquela enchente de 1963.
Enfim, sou uma das testemunhas desse “progresso” e Ipiaú foi de fato Município Modelo.
Mas penei muito diante do paradoxo: “Pai e coronel” era a figura representativa do latifundiário, os donos das terras.
Penei mais ainda em ter que dividir Euclides Neto: O ser humano que foi, do fazendeiro que em geral mantinha a imagem de opressor., mas preferi o primeiro, e seu lado humanitário foi comprovado pelas suas ações.
Vivi a minha vida em defesa de uma história construída com sangue, suor e muita luta em favor da justiça e da igualdade de todos os nossos conterrâneos. Não sei se consegui grande coisa, mas não me dou por vencida, pelo contrário estou em paz comigo.
O RESGATE:
A CULTURA foi o meu portão de entrada para este mundo de grandes batalhas que eu e muitos dos meus amigos enfrentamos, dentre eles: Oto Américo, Zé Américo, Albene, Janeide, Chita, Jorge Binho... e tantos que se foram, muitos que permanecem conosco e outros que foram se agregando em favor da causa. Alguns anônimos, outros bem conhecidos, porém todos eles, ainda que afastados fisicamente, continuam unidos pelo mesmo ideal.
Fui a primeira locutora de Ipiaú. A primeira voz feminina a falar na Rádio Educadora de Ipiaú, e me atrevi a denunciar as injustiças pelo bem comum. Minha língua não se calava, e por isso, estive a maior parte do tempo desempregada. Amada e ao mesmo tempo rejeitada. A heroína e a ré. A ovelha querida, mas perdida.
Fiquei sempre pelo fio da navalha, que a sociedade sabe muito bem como afiá-la e para quem apontá-la. Porém, entre estas faces antagônicas que a sociedade me doou, eu venci. Enterraram tudo que lhes desagradava e coroaram as minhas vitórias. Que confesso, foram muito poucas, dado as longas batalhas que eu e muitos dos nossos conterrâneos enfrentamos.
Acredito que mais perdas que vitórias. Pois perdemos a dignidade como artistas – não temos empregos e quase não temos trabalho nesta cidade - perdemos o Cine Éden, perdemos o rio Água Branca e estamos perdendo Rio das Contas. Perdemos o Museu, a Casa da Cultura, O Colégio Rio Novo e estamos perdendo a Fundação Hospitalar.
Enfim, estamos perdendo todos os nossos patrimônios e com eles a nossa história. Estamos realmente completos? Inteiros? Temos de fato uma identidade cultural? Acho que a perdemos também.
Lurdinha Bezerra
lubezerra.83@hotmail.com
Sou Lurdinha Bezerra, nasci em Patos na Paraíba e cheguei em Ipiaú-BA com um mês de idade.
Meu avô era tropeiro e viajava com uma tropa de animais desde o início do século passado, percorrendo os estados de Paraíba, Pernambuco e Bahia vendendo “Mangalhos” era este o nome dado a diversidade de mercadorias que levava e trazia, ficando assim, conhecido pelo nome de “Zé Magalheiro” e foi assim que ele descobriu esta comunidade, sob a denominação de Alfredo Martins. O comércio do “mangalho” foi intensificando à medida que esta região progredia, ficando ele cada vez mais tempo distante da família. Então resolveu trocar a tropa por dois caminhões, vendeu todos os bens que tinha na Paraíba e em Pernambuco e abriu aqui a primeira indústria manufatureira de calçados. Trouxe mais de cinqüenta famílias do nordeste para trabalhar aqui na região, vinte das quais trabalharam com ele na indústria. Em 1958 fechou a indústria para abrir uma Loja de couro e calçados: SAPATARIA PARAIBANA, situada à Praça Virgílio Damásio. Ficou então reconhecido pelo seu verdadeiro nome: José Sebastião de Souza.
A família veio depois, em maio de 1952 primeiro os filhos mais velhos, e quatro anos depois a esposa D. Ester e os filhos menores. Todos aqui se adaptaram, e outras gerações se seguiram.
Aqui estou, com um pouco mais de meio século, apaixonada por esta terra; a única que reconheço como minha e que se fez minha mãe e amada, pois foi aqui que aprendi a ser o que sou.
CRESCI ASSIM:
Vi Ipiaú se desenvolver, tomei banho nos rios da Água Branca e Rio das Contas, cresci escrevendo e declamando poemas, e fazendo pecinhas de teatro nas escolas. Ouvi todas as histórias e “causos” do coronelismo, das origens deste município, do Padre Fileto, de ex-escravos dos agregados - escravos brancos das fazendas de cacau -, (histórias que terão oportunidade de conhecê-las aqui nos meus contos e crônicas). Conheci figuras interessantes, que fez parte da nossa história. Presenciei as campanhas políticas de Urbano Cem Conto. Fui freqüentadora assídua do Cine Éden. Vi a primeira Igreja cair naquela enchente de 1963.
Enfim, sou uma das testemunhas desse “progresso” e Ipiaú foi de fato Município Modelo.
Mas penei muito diante do paradoxo: “Pai e coronel” era a figura representativa do latifundiário, os donos das terras.
Penei mais ainda em ter que dividir Euclides Neto: O ser humano que foi, do fazendeiro que em geral mantinha a imagem de opressor., mas preferi o primeiro, e seu lado humanitário foi comprovado pelas suas ações.
Vivi a minha vida em defesa de uma história construída com sangue, suor e muita luta em favor da justiça e da igualdade de todos os nossos conterrâneos. Não sei se consegui grande coisa, mas não me dou por vencida, pelo contrário estou em paz comigo.
O RESGATE:
A CULTURA foi o meu portão de entrada para este mundo de grandes batalhas que eu e muitos dos meus amigos enfrentamos, dentre eles: Oto Américo, Zé Américo, Albene, Janeide, Chita, Jorge Binho... e tantos que se foram, muitos que permanecem conosco e outros que foram se agregando em favor da causa. Alguns anônimos, outros bem conhecidos, porém todos eles, ainda que afastados fisicamente, continuam unidos pelo mesmo ideal.
Fui a primeira locutora de Ipiaú. A primeira voz feminina a falar na Rádio Educadora de Ipiaú, e me atrevi a denunciar as injustiças pelo bem comum. Minha língua não se calava, e por isso, estive a maior parte do tempo desempregada. Amada e ao mesmo tempo rejeitada. A heroína e a ré. A ovelha querida, mas perdida.
Fiquei sempre pelo fio da navalha, que a sociedade sabe muito bem como afiá-la e para quem apontá-la. Porém, entre estas faces antagônicas que a sociedade me doou, eu venci. Enterraram tudo que lhes desagradava e coroaram as minhas vitórias. Que confesso, foram muito poucas, dado as longas batalhas que eu e muitos dos nossos conterrâneos enfrentamos.
Acredito que mais perdas que vitórias. Pois perdemos a dignidade como artistas – não temos empregos e quase não temos trabalho nesta cidade - perdemos o Cine Éden, perdemos o rio Água Branca e estamos perdendo Rio das Contas. Perdemos o Museu, a Casa da Cultura, O Colégio Rio Novo e estamos perdendo a Fundação Hospitalar.
Enfim, estamos perdendo todos os nossos patrimônios e com eles a nossa história. Estamos realmente completos? Inteiros? Temos de fato uma identidade cultural? Acho que a perdemos também.
Lurdinha Bezerra
lubezerra.83@hotmail.com
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