RAÍZES DA ÁFRICA
Cantigas e contos e do negro Tomas
Não há dúvida, estamos no inverno. Hoje pela madrugada perturbando o silêncio da roça antes do cantar do galo que é o primeiro a anunciar o dia no terreiro, os capados do chiqueiro da lado da casa já começam a grunhir.
Um ventinho impertinente entra pelas frechas da casa e o frio aperta. Antes mesmo do amanhecer o fogo de lenha está aceso na cozinha.
Quando os ricos ainda desfrutam das suas esplendidas camas macias, o frio espanta a gente que trabalha no roçado e corre para o pé do fogão, apreciando o cheirinho do café que vai se desprendendo do vapor do coador preto e comprido que Rita escoa da chaleira para o bule.
Um barulho nos quartos do fundo ressoa, e de cá da cozinha já se espera a chegada do velho Tomás que se levanta cheio de gemidos de dores nas costas, mas com ânsias corre para se juntar ao resto da família, para esquentar o corpo da friagem.
Tia Poli de toalha no ombro, vai encher a cabaça de água que ele apara em porções com as mãos em côncavo, lavando o rosto sem deixar de gemer. Lava o rosto e vai tomar o café preto quente e gostoso, adoçado com rapadura, rapadura que ele mesmo fabrica no fundo do quintal.
O sol se levanta e o frio dá lugar a uma brisa fresca. Tia Poli vai correndo abrir as janelas e sai na varanda enrolando as redes e depois com a vassoura sai desempoando toda a casa.
No terreiro já se avista os roceiros de enxada no ombro, todos em fila cantando em direção a roça do cacau. Um canto triste e ritmado que combina com o trinar dos pássaros e o cantar das saracuras, numa percussão harmoniosa, acompanhado pelo refrão do cocoricó do galo.
Uma meninada debanda em corrida desabalada, perturba o canto, todos de vara de pescar nas mãos em direção ao rio. Corremos para a varanda a cumprimentá-los aos gritos: _”ô cumpade Geremias, bom serviço, meu cumpade” assim dizia a tia Poli, todo mundo pra ela é cumpade, é cumade.... E asssim o dia na roça começava.
Nas baixadas cantavam frangos-d’água, galinhas d’angolas,os curiós. Do pomar se ouviam os cantos dos canários, papa-capins, sanhaços, sabiás, bem-te-vis, rolinhas e tico ticos. Da grota os sons metálicos, tinindo e retinindo no martelar das arapongas.
Almoçávamos cedo, e logo depois do almoço as famílias da vizinhança se achegavam, cada uma com uma penca de filhos acaboclados, confirmando a fecundidade do matuto nordestino. Cumprimentos que se esboçam no sorriso tímido e nas pontas dos dedos, timidez que contraria o proseado alegre e sem fim na varanda com Rita e minha tia Poli, que não largavam suas costuras e se estrebuchavam em gargalhadas, furavam os dedos, chupavam o sangue e em segundos, retornavam às prosas, e a gente no meio da caboclada brincando do terreiro.
Os casos eram sobre a mulher bonita que Tião o filho do vaqueiro trouxe da cidade, muito vaidoso com a bonitona, tanto se esnobou, que acabou ela lhe plantando dois belos chifres no meio da testa, com os pescadores da fazenda vizinha e quando foi pega em situação desavisada, desapareceu pelo mato afora largando as calcinhas debaixo da mangueira, e quanto aos pescadores estes correm até hoje. Os casos das festanças da região, as mentiras de pescadores que o cabo Estrela conta e que ninguém acredita, e tem que fingir que é verdade, porque seu parabélum na cintura não permite que ninguém o desmentisse.
A tardinha, toda a caboclada de volta sumia no pé da montanha. Nunca fui até lá, mas Rita contava que volteando a montanha era a casa do seu Pereira, pai e tio daquela ninharada de filhos, tinha uma roça de cacau e um canavial de fazer gosto.
A noite era mais divertido! No cair da tarde, já começava com a viola e depois os causos de trancoso que fazia arrepiar os cabelos. Uma estória nunca se repetia; tinha de caipora, de saci, do lubisomen, da mulher de branco, sem contar das almas dos defuntos que visitavam em sonhos ou apareciam em visão, os parentes ou amigos, para desencavar ouro que eles enterraram em vida, e que alguém tinha que desenterrar, pois, só assim alma poderia ter descanso e até receber a salvação.
O velho Tomás garantia que foi desencavando um ouro ali debaixo daquela varanda que o nosso pai tinha comprado aquela terra. Essa era a única estória que ele repetia, porém a cada vez que contava, tinha uma ilustração a mais.
Meu pai era tropeiro, e viajando por aquela região, conheceu o coronel Justino um homem severo, tão severo que morreu só, nem a família quis saber dele, mas gostou do meu pai que passava de tempos em tempos, para trazer as mercadorias que o coronel precisava, para surtir o armazém. Foram muitos anos de amizade e quando o coronel se viu só e doente, mandou chamar seu amigo pra dizer que ia acabar com tudo, e não deixar nada pros seus herdeiros.
Meu pai, que ainda não era meu pai, ficou com ele até a sua morte e a família quis vender a fazenda, que foi o único bem que restou. Então ele tinha que deixar tudo e botar a tropa de novo na estrada, mas quando estava prá ir embora sonhou com o coronel lhe dizendo onde estava o ouro que ele guardara em vida, e segundo seu Tomás: _Não é que estava ali mesmo, no lugar certinho que a alma do coroné dissera?
E assim ele comprou a fazenda, ali viveu, casou-se ficou viúvo e casou-se de novo com a tia Poli, irmã da minha mãe, e quando ele morreu e tia Poli tomou conta de tudo.
Isso é o que garante seu Tomas, porque Tia Poli nunca confirmou nada. Fica sempre calada e não gosta quando ele contava essa historia. Mas todo mundo respeita o velho Tomás, afinal ele nunca abandonou a Tia Poli e tomou a frente de tudo enquanto pôde e faz questão disso até hoje, é respeitado por todos.
Ás nove horas, segundo o horário da lua, todos iam dormir, e seu Tomás ficava fechando as portas e apagando os candeeiros, ouvíamos seus passos e adormecíamos com os sons dos seus suspiros e gemidos. Às vezes ecoava um canto uníssono pelo nariz, que trazia uma canção triste lá das suas raízes africanas, e todos adormeciam um sono de retorno a um passado que nunca mais retornará. Tenho, até hoje a impressão, que ele cantarolava no propósito de nos embalar ao passado mesmo, para que tivéssemos de fato a certeza de que aquelas terras eram deles mesmos, de todos os negros vindos da África que construíram todas as casas e plantações que ali existiam. Era uma canção triste, mas senhorial.
: http://docs.google.com/Doc?id=dfr6xks3_1hd2tgsdj
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